O cinema tem o poder de nos transportar para momentos cruciais da história, oferecendo perspectivas sobre eventos que moldaram a fé e a sociedade. No campo da necessidade de reforma do cristianismo, dois filmes se destacam por abordagens distintas: "Lutero, o Filme" (2003), que dramatiza o rompimento que deu origem à Reforma Protestante, e "Dois Papas" (2019), que explora as tensões e a busca por renovação dentro da Igreja Católica contemporânea. A questão central é: qual dessas produções cinematográficas consegue retratar de forma mais eficaz e relevante a necessidade de reforma dentro do cristianismo?
Ambos os filmes, à sua maneira, destacam momentos de crise e transformação na Igreja, mas o fazem com focos e linguagens narrativas bem diferentes.
"Lutero, o Filme" (2003): A Reforma como Ruptura Fundamental
"Lutero, o Filme" mergulha na vida e nos desafios de Martinho Lutero, o monge agostiniano que ousou desafiar a autoridade da Igreja Católica no século XVI. O filme detalha sua angústia espiritual, sua descoberta da salvação pela graça através da fé (sola fide), e sua indignação com práticas como a venda de indulgências. Culmina com as 95 Teses, a Dieta de Worms e a perseguição que se seguiu, que inevitavelmente levaram à ruptura e ao surgimento do Protestantismo.
Como retrata a necessidade de reforma:
- Aborda a corrupção e a doutrina: O filme expõe claramente as práticas questionáveis da Igreja Católica da época, como a venda de indulgências, a ostentação e o afastamento dos ensinamentos bíblicos.
- Foca na busca individual pela verdade: A jornada pessoal de Lutero, sua luta interna e sua dedicação ao estudo das Escrituras são centrais. A necessidade de reforma é mostrada como uma busca sincera por uma fé mais autêntica e fundamentada na Bíblia, e não em tradições humanas.
- Mostra a intransigência institucional: O filme ilustra a resistência ferrenha da Igreja estabelecida em aceitar qualquer contestação, o que torna a reforma uma ruptura inevitável.
A "necessidade de reforma" em "Lutero" é, portanto, uma questão de correção doutrinária e moral fundamental, que se traduz em um cisma irreversível. É uma reforma que não pôde ser contida dentro da estrutura existente.
"Dois Papas" (2019): Diálogo e Renovação Interna na Contemporaneidade
"Dois Papas" oferece uma visão fictícia dos diálogos entre o Papa Bento XVI (interpretado por Anthony Hopkins) e o Cardeal Jorge Bergoglio (interpretado por Jonathan Pryce), futuro Papa Francisco. O filme explora as profundas diferenças ideológicas entre os dois, a crise de fé de Bento, os escândalos de abuso sexual que assolaram a Igreja e a necessidade de uma Igreja mais próxima dos fiéis e dos problemas do mundo moderno.
Como retrata a necessidade de reforma:
- Conflito de visões: O filme expõe o contraste entre uma visão mais tradicional e conservadora da Igreja (Bento XVI) e uma visão mais progressista e pastoral (Bergoglio). A necessidade de reforma aqui é uma tensão interna sobre a direção futura da Igreja.
- Crise de credibilidade: Os escândalos de abuso e a percepção de uma Igreja distante são abordados como fatores que minam a confiança dos fiéis e exigem uma profunda autoavaliação e mudança.
- Reforma como diálogo e continuidade: Ao invés de uma ruptura, o filme sugere que a reforma pode vir através do diálogo, da humildade e da passagem de bastão entre gerações e ideias, buscando a renovação sem abandonar a essência da instituição. A necessidade é de uma Igreja que se adapte aos tempos, seja mais inclusiva e reavalie suas práticas.
A "necessidade de reforma" em "Dois Papas" é uma questão de renovação pastoral e adaptação institucional, buscando superar desafios e escândalos para se reconectar com o mundo.
Veredito: Abordagens Distintas para Necessidades Diferentes
Qual filme retrata melhor a necessidade de reforma do cristianismo? A resposta depende da "reforma" a que nos referimos:
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Se a questão é a necessidade de uma reforma que questiona dogmas e estruturas fundamentais, levando a um cisma e ao surgimento de novas vertentes, "Lutero, o Filme" é, sem dúvida, o retrato mais vívido e histórico. Ele capta a urgência e a profundidade de uma transformação que foi tão radical que partiu a cristandade ocidental.
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Se a questão é a necessidade de reforma como um processo contínuo de autocrítica, diálogo e adaptação da Igreja Católica para enfrentar desafios modernos e recuperar a confiança dos fiéis, "Dois Papas" é o filme que melhor explora essa faceta. Ele humaniza os líderes e os dilemas, mostrando que a busca por uma Igreja mais relevante e pastoral é um processo doloroso, mas possível, de dentro para fora.
Ambos os filmes são valiosos para entender diferentes aspectos da necessidade de reforma no cristianismo. "Lutero" nos lembra das raízes históricas de grandes transformações, enquanto "Dois Papas" nos convida a refletir sobre a contínua necessidade de renovação e a complexidade de liderar uma instituição milenar em um mundo em constante mudança. Ambos, em suas épocas e contextos, são poderosos testamentos de que o cristianismo, em sua essência, está sempre em busca de ser mais fiel à sua missão e ao seu fundador.
Qual desses filmes você acredita que gerou mais reflexão sobre a necessidade de mudança na fé? Deixe seu comentário!